quinta-feira, 16 de outubro de 2014

SINTONIA


 Por Antonio F. Gonzaga

Todas as ordens, fraternidades, escolas, igrejas, partidos e qualquer congregação de ideias, quer queira ou não, quer saiba ou não, possui uma corrente energética ou corrente mental ou corrente vibratória, como costuma ser denominada. Essa energia é certo tipo de onda vibratória específica, não se trata de nada místico ou abstrato, mas uma força física análoga às ondas de rádio, que de acordo com o comprimento ou de outras características, não se confundem umas com as outras. Elas não podem ser vistas ou sentidas, embora estejamos imersos nelas, bem assim as ondas vibratórias mentais.

Como essas ondas de rádio que precisam de um aparelho regulado para captar em cada sintonia determinada onda enviada pela antena de determinada estação, nossa mente e nosso sistema nervoso são os aparelhos capazes de captar determinadas ondas bastando para isso, entrar em sintonia com elas. Existem algumas maneiras de entrar em sintonia com determinadas ondas.

Por exemplo, se uma pessoa lê determinado livro de uma religião, raciocina e se comove com o que está escrito nele, ele tende a entrar em sintonia com pessoas (e ondas mentais dessas) daquela religião, a partir dessa sintonia ele pode começar a falar sobre o assunto do livro e encontrar outras pessoas que leem o mesmo livro; se ele vai a uma congregação dessa religião e gosta do que vivencia lá, ele entra cada vez mais em sintonia; se ele frequenta uma igreja e acredita no que se diz lá; mais sintonia. Então ele começa a ser inspirado por ideias comuns daquela religião e de acordo com sua sintonia, sua inteligência e outros fatores; ele pode chegar a ideias específicas a partir da ideia geral da religião a que muitos outros daquela religião chegaram e poderão ainda chegar ou que já chegaram no passado, sem que para isso ele tenha que ouvir ou ler de alguém.

Outro caso muito comum é o de alguém com um pensamento científico sobre algum tema, ele pode chegar a ideias e experimentos iguais a outro que sequer conheça. O maior exemplo da história da ciência foi a teoria da origem das espécies através da seleção natural pensado simultaneamente por Wallace e Darwin sem que estes soubessem das ideias um do outro e sequer se conhecessem. Um exemplo maior é que você mesmo já pode ter pensado essa hipótese da sintonia e captação mental. Eu mesmo já conversei com alguns amigos que chegaram a mesma ideia, assim como eu mesmo, de que captamos ideias “no ar” assim como uma televisão capta as ondas de rádio no ar de acordo com a sintonia que escolhemos.

Esses são exemplos gerais, mas muito comuns, experiências que talvez qualquer pessoa alguma vez tenha notado consigo mesma. Pode ser que, até facilmente, se interprete de outra forma, talvez com algum psicologismo. Porém o que nos interessa, independente da explicação do fato, é uma sintonia, uma exata vibração, que não só possibilite tal inspiração orientadora, mas também que dê reais respostas, comprovadamente eficientes e corretas, que se possam confirmar, e ofereçam formas de confirmar; que dê força para o que deve ser realizado; que dê proteção dos perigos físicos e psicológicos do nosso mundo; que transmita paz, bem aventurança e saúde dentro das possibilidades e do potencial máximo de cada um. Estes entre outros possíveis benefícios são os benefícios de estar sintonizando com nossa corrente.

Existem três maneiras de usufruir de nossa corrente nesse sentido: (1) lendo, ouvindo ou estudando (e raciocinando sobre, mentalizando, imaginando, etc.); (2) praticando, meditando, exercitando o aprendido; e (3) entrando em contato, praticando juntos, recebendo informações e energia através do professor ou amigo espiritual ou parceiro praticante. Dessas três, as duas últimas são as mais poderosas e mais importantes, mas que não se desenvolvem sem a primeira.

Existem outras duas maneiras muito utilizadas, mas que não nos interessam. Essas duas maneiras são através das emoções e da fé ou crença. Estas duas são as que mais têm sucesso como proselitismo; elas com certeza são as que mais atraem e mais cativam as pessoas, e principalmente em bando, isto é, às multidões. É claro que elas podem ser utilizadas individualmente para um benefício, mas não devem ser usadas para gerar ou expandir uma corrente. O início e a manutenção de uma corrente através das emoções sejam elas superiores ou inferiores só se dá pela exacerbação das emoções, e esta só pode gerar o esgotamento, o desequilíbrio e a cegueira. Por outro lado a crença, em si mesma, já é uma cegueira, pois é inconsciente do real objeto. E a fé (especialmente no sentido que se dá no ocidente, como sinônimo de crença) é fruto do crédito exacerbado, emocional, passional, teimoso, cego. Portanto nenhuma das duas formas condiz com nossos objetivos que incluem o despertar, o ver por si mesmo, o comprovar, a experiência, o equilíbrio, a equanimidade; a poupança, o acúmulo e a utilização consciente e equilibrada de energia.

 A fé virá no futuro, sim, mas fé no sentido de confiança e segurança interior, fruto da experiência, do estudo atento, racional, da comprovação direta. A fé também como uma forma de esperança é uma alavanca poderosa, mas precisa ser bem usada para alcançar objetivos e não para dar crédito a ideias sem lógica e sem comprovação. A fé jamais deveria ser dirigida para se contentar com respostas prontas, dogmas, palavras sagradas, nem para visar crenças infundadas, sem base na experiência. Seria construir a própria armadilha e se aprisionar nela, construir uma muralha de ilusões, falsas certezas.

Ambas as formas, a fórmula da emoção e a da fé, não conduzem à experiência, não levam ao desenvolvimento das faculdades e potenciais ocultos de espiritualidade. Elas produzem apenas para alguns, que estão num nível baixo de espiritualidade, certo desenvolvimento que chega a um ponto estanque de onde ele não mais consegue se desenvolver, só permanecer a custa de constante renovação e investimento de energia ou decair por negligência. Por isso que as religiões baseadas na fé ou na emoção não chegam a um grau de visão, e jamais a uma visão pura, e terminam desviando o desenvolvimento para o campo materialista.

Também essas formas de cultivo inconsciente e inconsequente constituem um grande dispêndio de energia, são desgastantes e deprimentes; levam a pessoa a resignar-se à cegueira e ao sofrimento; leva ao conformismo, à letargia moral, à negligência, à aceitação da injustiça e da desordem espiritual, mental e social. Levam a uma oposição ao mundo, ao universo, ao resto da humanidade, aos animais e enfim, à natureza; em vez de levar a uma união benéfica e harmoniosa que contemple a tudo e a todos.

De onde vem a nossa corrente, é uma questão que até certo ponto pode afligir a mente do estudante, até sentir ou perceber que de fato está envolvido e protegido por um campo de força maravilhoso, uma corrente benévola de amor, paz e consciência. Este campo não é nosso sentido de que nós o possuamos ou o tenhamos criado. Ele é formado pelas mentes iluminadas de todos os tempos e pelas energias benéficas dos que andam e buscam nessa direção.

Nós dizemos que seguimos o Sol no seu trajeto, isto é, seguimos a luz até nos tornarmos unos com ela. Buscamos a Luz, a consciência, o conhecimento direto, e por fim a iluminação. Nossa corrente vem da ligação que todo adepto e ou iniciado realiza ao decidir-se com firme vontade a dedicar-se ao desenvolvimento espiritual e à visão clara. Ela está acima da humanidade há milênios, disponível a todo aquele que se enobreça ou se esforce para entrar em sintonia com ela. Alguns dizem que há uma única corrente para todos os iniciados de todas as escolas, ordens, religiões, fraternidades, uma corrente universal. Outros que há um anjo ou uma divindade que nos liga a uma corrente correspondente a nossa missão aqui. Entre esses dois pontos de vista podem haver vários. Mas o fato é que a corrente está aqui a nossa disposição e nós não somos os primeiros, nem o curto tempo que temos de vida ou de existência nesse planeta poderia sondar a ancestralidade original de cada raio de luz. O que podemos falar é da fonte única, Una, absoluta, incondicionada.

O que faz o ser é o querer, é sua vontade, só a vontade distingue um ser de outro, os outros elementos são compartilhados e cambiados com o ambiente e com os outros seres. É preciso ter uma vontade pura, consciente, é a vontade que ligará o ser a uma corrente mental, pois é através daquilo que ele deseja ser, daquilo que ele aspira para si mesmo que é medido seu “comprimento de onda”, quer dizer: “o que ele quer, é isso que se tornará”. Ou seja, sua vontade é o principal determinante de suas sintonias mentais, de quais canais entrará em sintonia e receberá informação. Se formos sinceros conosco, se nos dedicarmos, se procurarmos encontramos. A iniciação é um abrir de porta. Nós nos ligamos à fonte através de nossa busca, pela fonte original, pelo tesouro oculto, pela libertação das ilusões e da ignorância... pela verdade que está aqui e agora dentro de nós.

Sintonia significa junto (sin) tom ou nota (tonia), e notas juntas formam harmonia, notas separadas não existem, toda nota ressoa e toda nota está imersa no meio de muitas outras que também ressoam. As notas que combinam se harmonizam entre si, podem formar músicas. É a lei da natureza, não tem mistério nem mágica nisso. Quer queira quer não sintonizamos com algumas correntes. O melhor é fazê-lo conscientemente e com uma corrente que nos enobreça, que nos eleve moralmente e espiritualmente e que abra nossos olhos, que nos liberte da ignorância e da sujeição ao sofrimento nos quais estamos inebriados e imersos agora.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Ecologia Eletrônica

Por Antonio F. Gonzaga



Como um computador ou uma televisão que projetam sucessões de quadros de luzes em sua tela, o que dá a impressão de conteúdo e movimento, das funções ou programas, dos arquivos e imagens, assim somos nós, o corpo e o mundo dos sentidos, os pensamentos e todo o universo mental, as imagens produzidas. Mas o aparelho completo é muito diferente mais e muito diferente do que se vê na tela.

                O universo é o aparelho completo, mas não o universo que vemos, que conhecemos ou que imaginamos; não dessa forma. Nós não vemos as coisas como são de fato. Nós vemos as coisas como entes separados, independentes, da maneira como vemos estas letras escritas na tela, como elas foram colocadas na tela uma a uma.

                Só que a realidade não é a da tela, nem sequer a do computador. Acho que agora você começou a intuir algo do que eu estou falando. Na verdade quando vemos as letras como entes separados não lemos as palavras, quando vemos as palavras como entes separados não vemos as frases; quando vemos as frases somente, sem conexão não vemos as ideias.

                A realidade por trás das letras, da tela, do aparelho de computador, das mãos escrevendo, dos olhos lendo... são as ideias. Que as ideias mentais estão por trás, das letras, das telas, das imagens, dos aparelhos, é fácil de entender. Mas entender que elas também estão por trás das mãos, do corpo, do mundo, do universo, da natureza e de toda realidade que vivemos pode ser mais difícil. A natureza mãe de tudo isso é bem maior do que tudo que podemos perceber e muito maior, muito além e muito diferente do que podemos imaginar.

Você usa o computador, mas sabe como ele funciona? Sabe como guarda as imagens, as letras os arquivos, os programas? Você não sabe como o cérebro guarda a mente. Você realmente pensa que o cérebro guarda ou produz a mente? Como poderia provar isso? Como poderia ser isso?

                A realidade é justamente o contrário. A mente guarda o cérebro, o corpo, o mundo e tudo: tudo que possa ser percebido só será percebido na mente, jamais fora dela. Mas não é apenas a mente como você conhece agora. A mente como você vê são apenas as imagens e as letras. Você não vê o aparelho o corpo, as mãos os olhos, o universo, as ideias, a natureza, a mente toda e tudo que há nela. Você vê de forma ilusória e separatista, no máximo conecta as palavras, mas sequer vê as ideias, isto é, sequer vê a mente por inteira como ela é na realidade. Então pensa que as letras ou palavras ou frases são seres separados, à parte, com uma identidade própria e separada.

                Entende o absurdo dessa visão? Bem assim é ver os seres, as mentes, o mundo, as ideias, o universo, o conhecimento, todo o conhecido e tudo que se pode conhecer, como seres separados, à parte e independentes.


 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Sobre a morte, o morrer e o renascimento.






Por Antonio Fernando Gonzaga (da tese apresentada à O.I.T.O.)

 Agora imaginemos para efeito de ilustração como se a consciência fossem ondas de rádio numa certa frequência, ao se deparar com um rádio ligado ela pode ou não transmitir transformando-se em som, basta que o rádio esteja sintonizado naquela frequência. Mas existem muitos rádios e apesar de haverem milhares de frequências, no universo dos rádios esse numero é muito limitado, de modo que vários rádios podem estar sintonizados na mesma frequência ao mesmo tempo, é assim que as estações transmitem seus programas para muitos aparelhos de rádio que estão sintonizados naquela estação naquela hora.

Agora suponha que em vez de milhares de frequências houvessem quintilhões  de frequências específicas. Não existem no mundo quintilhões de rádios, muitas programações estariam sobrando no ar, sem nenhum rádio captando-as. Agora suponha que cada rádio já viesse pre-sintonizado para apenas uma frequência específica, aleatória e diferente de outros rádios. Para cada uma entre os quintilhões de frequências só poderia haver um rádio específico ou nenhum, pois existem mais frequências entre as ondas de rádio do que entre as sintonias dos aparelhos devido ao número dos aparelhos de rádio. Poderá demorar anos para surgir um rádio sintonizado numa frequência que não está sendo captada agora.

Pois bem, a mesma relação se dá entre a consciência-mentalidade e o corpo-genes. A consciência com sua bagagem mental é como uma frequência de ondas de rádio específica e o corpo com seu código genético é como um aparelho de rádio com apenas uma sintonia específica. Esse modelo serve perfeitamente dentro de suas reservas para explicar como uma consciência-mentalidade pode migrar para outro corpo depois da morte deste. Exatamente como as ondas que eram captadas num rádio que quebrou definitivamente poderão ser captadas novamente quando surgir outro rádio com aquela sintonia específica, como descrita no nosso exemplo, a consciência com sua mentalidade pode se ligar a um novo corpo com um código genético compatível.

 


domingo, 8 de junho de 2014

[Resumo pragmático dos fundamentos, observáveis, desse sistema]

Obs.: esse não é o texto publicado aqui anteriormente, é o texto completo com sua parte 1 atualizada.










Resumo das ideias básicas, observáveis, desse sistema:

Por Antonio Fernando Gonzaga (da tese apresentada à O.I.T.O.)

A consciência


A consciência em si é vazia como um espelho, porém luminosa. Aqueles que não meditam não veem sua luminosidade própria, ao buscar observar a consciência não a veem de fato, mas aos objetos que estão nela, como se veem imagens refletidas num espelho. O pesquisador treinado, ao observar constantemente, mudando o foco da visão para a consciência (assim como se pode mudar o foco da visão num espelho para o vidro do espelho em vez da imagem) a ponto de já enxergar ou mesmo produzir momentos de pura consciência, vazia, vê, ainda que de forma imprecisa e incompleta, apenas esse vazio e, só às vezes, essa luminosidade que para uns no início chega até a parecer simplesmente a ausência de tudo e para outros o oposto, a completude. Esta consciência que testemunha, é a consciência por trás de todos os fenômenos, que contém todas as coisas e fenômenos, que comtempla todas as ideias e relações da mente. Embora ela pareça pessoal, própria, isolada, isto é apenas um engano provocado pela nossa identificação com os objetos da consciência. Quando o meditador larga esse apego ou essa identificação errônea ou pelo menos quando se identifica com a consciência em si, ele percebe por si mesmo esse engano. Deixando de lado essa forma de pensar ou de ver (ou esse engano) ele percebe que ela em si, ou seja, fora os objetos em seu fluxo, é vazia e luminosa, aberta ao que puder surgir e não uma coisa ou um fenômeno só mas uma sucessão de consciências conscientizadas (auto conscientizadas), um fluxo de ínfimos instantes de consciência sustentadas conscientes pela vontade motivada por uma afeição. Como um espelho refletirá o que for possível de estar em frente a ele e seja suscetível à luz. Portanto, ela em si, é a mesma em todo e cada ser vivo, o que muda de um ser para outro é o que aparece nela, as experiências, os “conteúdos” (melhor dito: o fluxo dos conscientizados pela consciência e não o fluxo mesmo da consciência). Entretanto nos seres essa vontade e essa afeição podem ser dispersas em objetos e fenômenos e distorcidas pelas “manchas no espelho” e pelo prisma dos objetos escolhidos e fenômenos de afeição.

Isso nos leva a algumas consequências importantes. A mais importante delas é a de que a diferença entre os seres é justamente aquilo que é “mortal”, transitório, transformável. E justamente essas coisas, por tomar um ponto de vista equivocado, são as quais se apega (uma distorção cega ou doentia da afeição original) e por isso sofre. No topo dessas coisas está a própria abrangência da consciência quanto aos (1) conscientizados, (2) a intencionalidade e (3) o afeto. Cada ser tem sua história, suas experiências, e as únicas coisas que são unicamente suas, são suas ações desencadeadas por essas três elementos combinados: a consciência em seu fluxo e relações, ou seja, o que e como ‘percebe’; o afeto em sua seleção daquilo que lhe toca, de como lhe toca, de como se sente em relação a; e a intencionalidade da consciência que fica geralmente oculta, por sua rapidez, do crivo da consciência mesma distraída pelos objetos e fenômenos, sendo apenas vislumbrada a posteriori como reação ao conscientizado e sentido ou, às vezes, como impulso, instinto ou necessidade.

A transformação da mente no processo do despertar


Para o meditador experiente acostumado a perceber que a intencionalidade é simultânea à consciência, há (1) uma possível liberdade da consciência da prisão do condicionado, do mundo fenomênico (antes tido como existente por si mesmo), de suas impressões e afeições condicionadas (sentimentos, sensações, feelings) e, portanto, uma visão mais clara e lúcida, desobstruída de tais distorções; e quiçá o acesso às condições originais, porém completamente consciente. Pode haver também assim (2) uma libertação em relação ao experimentado antes como fato fixo inalterável e existente por si mesmo (fosse fenômeno, coisa ou seu fluxo). Ele pode alterar as impressões, a consciência ou mesmo o que antes tinha como objeto e ou fenômeno. No primeiro desses processos se baseia o processo do despertar, do conhecer e do ver por si mesmo. No segundo se baseia a transformação de si mesmo, da vida e das condições e condicionamentos prejudiciais do praticante. Ambos estes processos (1 e 2) são acelerados pela atenção constante e quando dirigidos para uma purificação mental (compreensão e transformação dos processos obstrutivos, desobstrução das condições originais, retirada das “manchas” que obstruem e distorcem as imagens no espelho). A purificação mental e a lucidez consciente, por outro lado, são acelerados num crescente retroalimentativo desses dois processos.

Portanto a primeira consequência prática e verificável é que observando constantemente e limpando a consciências dos processos e condições que distorcem ou impedem a visão esta verá melhor e mais amplamente. Em outras palavras, é num processo de autotransformação e de purificação (“limpeza do espelho”) que ele alcançará o conhecimento mais certo e mais profundo da realidade, de si mesmo e da consciência. Esse processo deve ser realizado corretamente, crescente e ininterruptamente, pois a negligência pode simplesmente “mudar a mancha de lugar” ou “permitir que a sujeira novamente se acumule”, isto é, que os processos e condicionamentos impeditivos sejam desviados para outras direções, ou mesmo se acumulem obstruindo outra área, ou que sejam adquiridos e condicionados novos processos obstrutivos. Então o primeiro potencial é a descoberta e transformação de si mesmo que resultando numa visão mais clara e cada vez mais completa leva ao autodomínio crescente e, pelo menos em tese, a um domínio melhor da vida e das situações; disso surgem consequentemente melhores relações consigo, com todos e com tudo, mais facilidade, mais prazer, mais felicidade. Só por esse aspecto já se trata de um grande benefício.

A transformação da realidade


A segunda consequência é que através da certa perspectiva de visão mais ampla, clara e concreta, pela remoção e transformação dos processos obstrutivos e pelo controle dos fenômenos transitórios e mutáveis entre esses conteúdos da consciência e seu funcionalismo (que envolve condições, condicionamentos, condicionalidade), pode-se ampliar essa visão e liberdade. Neste caso, do controle correto dos fenômenos certos, que tem como objetivo a liberdade e o ver por si mesmo, o potencial adquirido vai desde atingir certo controle sobre as condições e situações da vida até o ápice de passar de uma experiência limitada no tempo, no espaço, na memória, na forma, na percepção, para uma experiência ilimitada e mesmo além do tempo (como conhecemos), da forma, e, mais adiantadamente no processo, além da percepção e da não percepção.

Sendo que os fenômenos são sempre um agregado conformado por conhecedor, meios de conhecimento e conhecido. O conhecimento nunca pode ser determinado por si mesmo, mas da interação desses três. Alterando qualquer uma das três, mesmo que “isoladamente”, supondo que isso fosse possível, se alterariam as outras duas. Podemos, sucintamente, considerar a consciência como conhecedor, os sentidos (e quando digo sentidos não me refiro aos órgãos do sentido que também são objetos, mas aos sentidos mesmo, como nos aparece no sentido que reúne todos os outros, a mente) e a mente como os meios de conhecer e os objetos e fenômenos como o conhecido ou por conhecer. Nesse modelo, alterando a consciência (pela manobra dos elementos que a distorcem) mudamos, por exemplo, a visão dos objetos, ou seja, mudando a mente (onde estão justamente os sentidos e objetos que obstruem a consciência) podemos ter uma consciência diferente das coisas e fenômenos. Portanto os teremos modificado fundamentalmente, sob nossa perspectiva. Alterando objetos e fenômenos também em nossa consciência esses aparecerão diferentes, obviamente, mas o resultado dessas alterações na consciência são quase sempre mínimos, insignificantes ou imperceptíveis. O nosso problema é justamente estarmos com fixação nessa perspectiva a fim de conseguir liberdade, prazer, saúde felicidade, etc., nos focando cega e obcecadamente na mudança dos objetos e ou fenômenos, especialmente, os materiais. Mas se alterássemos inteligentemente os objetos e fenômenos a fim de conseguirmos mais facilmente a primeira condição apresentada (a de transformar a nossa perspectiva e mente) poderíamos conseguir muito mais rápido e fácil, liberdade, prazer, saúde, paz felicidade, etc. sem necessariamente depender de objetos e fenômenos aparentemente exteriores a nossa mente. Portanto essa condição além de gerar paz, liberdade, prazer, saúde e felicidade, trás a possibilidade de modificarmos os próprios fenômenos e coisas, sem ser dependentes deles, sem uma visão obcecada e sofrível por não obtê-los ou por eles serem transitórios, e ainda aproveitá-los com uma maior clareza de consciência, com uma visão mais ampla e realista sobre eles. Só isto por si mesmo seria um grande benefício.

A infinitude do fluxo da consciência e da mente


A terceira consequência é que a incontestável experiência da consciência e da mente, vista nessa perspectiva como no início foi apresentada, é a prova da imortalidade, em um sentido pelo menos. Sendo a consciência como em nossa analogia, como um espelho luminoso, refletora dos conscientizados e com uma intencionalidade e afetividade capazes de iluminar ou distorcer os visados e conscientizados, tomando-a a parte, todas as consciências em si são iguais, alterando apenas sua experiência, seus visados e conscientizados. Enquanto houverem seres (isso tomando provisoriamente o ponto de vista da ciência comum) a consciência permanece. Não havendo individualidade ou pessoalidade da consciência, a ilusão da memória e de sua individualidade é logo descartada, pois temos apenas certas memórias mesmo de nossa experiência e de nós mesmos até o nascimento, não tudo, e são exatamente as memórias das quais nos apossamos como nossa, do ponto de vista da consciência, que faz que tenhamos a ideia de sermos nós mesmos, como deve ocorrer com qualquer consciência ao visar qualquer conscientizado em matéria de memória (não é a consciência que verifica o reconhecimento, mas a memória, portando qualquer memória confirmará a si mesma invariavelmente não podendo servir de critério). Visto que nossas escolhas provêm de nossa vontade, mas não sem relação ao conscientizado e como nos sentimos em relação a ele (que é o afeto em relação, mas também simultaneamente um aspecto interferindo no outro, não um após o outro como aparenta), as consequências dessas atividades também permanecem no fluxo da consciência embora a memória seja perdida quando nascemos.

Devido à consciência ser neutra, impessoal, una, igual em todos os casos, e por outro lado devido ao condicionamento de vontade e de afeto, a consequência da mente e dos conscientizados anteriores bem como de sua inter-relação (que não pode ser simplesmente suprimido, pois tudo que existe num momento depende e foi condicionado por um momento anterior) ao se deparar com as condições iguais ou mesmo semelhantes das impressões nos subprodutos e condicionamentos de vontade e afeto se identifica com elas, qualquer consciência se identificaria de forma idêntica. Porque embora a consciência não encontre as memórias anteriores, ela encontra as características de vontade com suas derivações e condicionamentos, e também as de afeto em seus condicionamentos, gostos, preferências, atrações, paixões, amores, etc.. Estas, mesmo se não pensássemos na lei natural das causas condicionantes que são a origem de sua repetição, inevitavelmente, pela similaridade própria da natureza humana, se repetem em sua combinação, cabendo à uma consciência que nasça apenas se dar conta disso, pois qualquer consciência em si mesma é vazia de objetos, igual a qualquer outra. Desse modo temos que o ser, aquela mentalidade com aquele conjunto de condicionamentos e característica do instante da morte, se repete, ou seja, renasce.

Isto dito dessa forma pode parecer difícil de entender sem definir todos os conceitos que apoiam essa ideia, para uma noção mais aprofundada sugiro a leitura dessa tese completa que explica a consciência e suas propriedades. Mas já se considerarmos a consciência em seu aspecto triplo (consciência, vontade e atração) ou em si mesma (em seu aspecto consciência-consciente), significa que se pensarmos a consciência-espelho como um elemento separado do aspecto luminoso (intencionalidade e afeição), ela, ao “se deparar” com um corpo que contenha os mesmos aspectos muito semelhantes ou iguais a um agregado condicionado anteriormente terá a mesma relação ou bem similar a que teve anteriormente com aquela “outra” intencionalidade e afeição, pois ela é vazia e neutra, ela se identificará a ele como sendo o seu “si mesmo”. Seria como se pudéssemos tirar as manchas de um espelho e por noutro igual exatamente da mesma forma assim como sua luminosidade. Assim qualquer pessoa, ou dito de modo mais exato, qualquer mente em sua disposição apresenta condições e características que a tornam única (não se está falando e informações, memórias etc., mas de disposições, a saber, capacidades, tendências, aptidões, emotividade, afeições, etc.), mas não irrepetível. E o fato (até mesmo biológico, mas não é do que se trata aqui) é que essas combinações se repetem senão em uma em um bilhão de pessoas, uma em um trilhão, que importa? O número de uma possibilidade de repetição ocorrer no meio de milhões, trilhões ou mais, só vai alterar a distância no tempo em que a nova ocorrência se concretizará, dado o tamanho da população na terra. Imagine, a cada cem anos nascem e morrem quantas pessoas? Agora pense no tempo decorrido desde o aparecimento do ser humano na terra, são quantas centenas de anos, quantos bilhões de pessoas? Acreditar que essa combinação de condições mentais não se repete todo esse tempo surgindo a cada ano tantas pessoas não é apenas uma arrogância, é uma ingenuidade muito grande, é uma opinião que só se sustenta por ser impensada ou por axiomas e crenças dogmáticas. Mesmo pensando apenas nas condições biológicas ou cerebrais como determinantes de um conjunto de caracteres e potencialidades mais ou menos mutáveis e realizáveis. Tais conjuntos de combinações têm a possibilidade de se repetir muitas vezes durante todo esse tempo.

Pensar a consciência como algo surgido na dependência das outras condições, ou  pensá-la como um ente impessoal, universal e não individualizado ou pensá-la como a portadora das impressões e experiências mentais (em seu resultado, não informações memorias, etc.) ou dos aspectos aqui chamados de luminosidade (vontade e afeição) e seus produtos, não altera o resultado dessa explicação. Assim não é preciso imaginar a consciência como separada da vontade e da afeição para admitir isso visto que qualquer consciência em seu aspecto “reflexivo” só é diferente de outra por refletir o que seu aspecto luminoso e seus condicionamentos lhe permitem, ela mesma por si não difere de outra, assim como dois espelhos que se suponham perfeitamente planos e iguais vão refletir a mesma imagem quando colocados no mesmo lugar e posição. Os aspectos mutáveis por sua vez nem por isso deixam de se repetir na existência mesmo que demore muito anos e gerações para isso acontecer. Ora, pela descrição de várias filosofias, doutrinas e religiões é justamente o que acontece, não dizendo que por isso tenham razão, mas que por isso não há o que se estranhar. O único problema para o senso comum é aceitar como falsa a ideia de um eu ou alma imortal e imutável. Mas isso é tão tolo quanto acreditar que nunca mudamos desde a infância, ou adolescência e ao longo de toda a vida. Aprender, conhecer, amadurecer, só isso já é mudança. Experimentos científicos mostram que mesmo as recordações são alteradas ao longo da vida, algumas até fabricadas. Então nem mesmo essa memória que é a base de todo engano de identidade imutável seria confiável como critério, nem sequer nessa mesma vida.

Essa teoria não é uma especulação filosófica, ela é um modelo que se ajusta para explicar os que os experimentos científicos sobre a sobrevivência de algo depois da morte física têm demonstrado. Os principais estudos se baseiam em experimentos com médiuns através de comunicações com pessoas falecidas; comunicações ou presenças captadas utilizando aparelhos; recordação natural de vidas passadas e regressão; e experiência de quase morte, em todos os casos verificando se as informações apresentadas correspondem a fatos. Não é objetivo aqui explicar esses experimentos e seus resultados, mas apesar destes confirmarem a sobrevivência de algo ou pelo menos da consciência, uma explicação científica de como isso ocorre não é encontrada. Entretanto sabemos que se pensarmos um universo como material com a consciência e a mente sendo resultados da vida na matéria, chegamos a conclusões bem diferentes de quando pensamos um universo como fenômeno da consciência (pois tudo que sabemos e conhecemos é em nossa consciência que o fazemos). Porém, dentro desse modelo, como ficou demonstrado, isso pouco ou nada importa, ainda mais que a realidade da consciência em ambos os casos é inegável. Além disso, sabemos da influência da consciência, de seu nível, de seu conhecimento e de seus estados na verificação, detalhamento e alcance de qualquer observação. No caso apresentado mais ainda, pois o meditador não só aguça o poder de observação da consciência ao longo da vida prática, como também adquire o conhecimento de seu funcionamento e mais que isso, testemunha experiências próprias dos estados mais elevados de consciência que só ocorrem na meditação profunda e com aqueles que praticaram o bastante.

O que pode ainda ser estranho para a maioria das pessoas é essa impessoalidade e não individualidade da consciência. Porém, isto é um aspecto, mais uma vez, que só se pode entender completamente pela experiência meditativa e a partir de uma nova perspectiva da consciência. A pessoalidade ou individualidade não está por isso abolida visto que elas são precisamente as tais características, disposições e condicionamentos da mente, no aspecto do afeto e da intencionalidade da consciência, que aqui chamamos de luminosidade própria. O que está abolido e totalmente refutado sobre essa pessoalidade e individualidade é que ela seja eterna e imutável. Ora, ela muda muito mesmo numa única vida. Logo, está mais passível de mudança ainda em inúmeras vidas mudando sempre inúmeros condicionados. Mudar é a “essência” do “permanecer”, sem mudança coisa alguma permanece e o que permanece é a eterna mudança. A mudança, porém não descarta a repetição em outro lugar ou outras condições, etc.. E no caso chamado de iluminação, se for o que algumas afirmam ser um estado de onisciência, como pode permanecer a individualidade se ele comunga com todas as consciências iluminadas e não iluminadas? Porém, a individualidade também não pode desaparecer, pois permanece no conhecimento e na lembrança da consciência como no paradigma da “sim-contradição” que será explicado nessa tese (no entanto a maioria discorda de uma onisciência absoluta, mas concorda com uma onisciência relativa, que abrange o presente apenas, e o passado dependendo da vontade e da investigação proposital, portanto ainda seria uma individualidade, embora não mais a mesma de antes, assim como a individualidade do adulto não é a mesma de quando era bebê).

Essa “sobrevivência da consciência” é garantida por tudo isso, tanto pela sua independência da corporeidade quanto pela aparente atual dependência de corpos que nasçam.  No entanto apegar-se a esse aspecto do renascer ainda é sofrer, pois se está sujeito ao esquecimento sempre e a adquirir novos condicionamentos prejudiciais, entre outras desvantagens. O objetivo, por isso é utilizar sabiamente as outras duas consequências anteriores apresentadas por esse sistema para uma autotransformação e uma consecução que englobe pelo menos: (1) não perder o aprendido em informação e memória (que já não se perde no sentido de aptidão); (2) a possibilidade de superar a repetição em “dependência da matéria” nesse mundo ou modo tal como conhecemos agora, mas que no máximo permaneça apenas em dependência do psíquico dentro dos novos modos de ser conhecidos através de práticas como a atenção contínua, a meditação e a projeção da consciência, entre outras; e (3) até mesmo a possibilidade de superar todos os condicionamentos e consequentemente todos os condicionantes e condições limitantes e permanecer sempre e initerruptamente consciente independente e livre.



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O PRINCÍPIO DA MULTIPLICIDADE [DA UNIDADE]



Na nossa casa você não precisa de mais nada
Você não precisa de ninguém
Você só precisa de você
Você só precisa descobrir você

Então verá que você não existe
Que não existe ninguém
Que não existe nada
Então verá que tudo é você mesmo

Para o não iluminado há “o mundo e eu”
Para ele há Buda e Nirvana, e o Samsara
Mas para o iluminado “eu”, “o mundo”, “Buda”, “Nibbana” e “Samsara”
São uma coisa só

Eu, Buda, Nibbana e Samsara: tudo um

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Resumo das ideias básicas do sistema


Por Fra. I.L.I.V.

1.    A consciência em si é vazia como um espelho, porém luminosa. Aqueles que não meditam não veem sua luminosidade própria, ao buscar observar a consciência não a veem de fato, mas aos objetos que estão nela, como se veem imagens refletidas num espelho. O pesquisador treinado, ao observar constantemente a ponto de já enxergar ou mesmo produzir momentos de pura consciência vazia, vê, ainda que de forma imprecisa e incompleta, apenas esse vazio e, só às vezes, essa luminosidade que para uns no início chega até a parecer simplesmente a ausência de tudo e para outros o oposto, a completude. Esta é a consciência por trás de todos os fenômenos, que contem todas as coisas e fenômenos, que comtempla todas as ideias e relações da mente. Embora ela pareça pessoal, própria, isolada, isto é apenas um engano provocado pela nossa identificação com os objetos da consciência. Quando o meditador larga esse apego ou essa identificação errônea ou pelo menos quando se identifica com a consciência em si ele percebe por si mesmo esse engano. Deixando de lado essa forma de pensar ou de ver ou esse engano ele percebe que ela em si, ou seja, fora os objetos em seu fluxo, é vazia e luminosa, aberta ao que puder surgir e não uma coisa ou um fenômeno só mas uma sucessão de consciências conscientizadas, ou seja um fluxo de ínfimos instantes de consciência sustentadas conscientes pela vontade motivada pela afeição. Como um espelho refletirá o que for possível de estar em frente a ele e seja suscetível à luz. Portanto ela é a mesma em todo e cada ser vivo, o que muda de um ser para outro é o que aparece nela, as experiências, os “conteúdos” (melhor dito, o fluxo dos conscientizados pela consciência e não o fluxo mesmo da consciência). Entretanto nos seres essa vontade e essa afeição podem ser dispersadas em objetos e fenômenos e distorcidas pelo prisma dos objetos escolhidos e fenômenos de afeição.

Isso nos leva a algumas consequências importantes. A mais importante delas é a de que a diferença entre os seres é justamente aquilo que é mortal, transitório, transformável. E justamente essas coisas, por tomar um ponto de vista equivocado, são as quais se apega (uma distorção cega ou doentia da afeição original) e por isso sofre. No topo dessas coisas está a própria abrangência da consciência quanto aos conscientizados, a intencionalidade e o afeto. Cada ser tem sua história, suas experiências, e as únicas coisas que são unicamente suas são suas ações desencadeadas por essas três elementos combinados, a consciência em seu fluxo e relações, ou seja, o que e como ‘percebe’; o afeto em sua seleção daquilo que lhe toca, de como lhe toca, de como se sente em relação a; e a intencionalidade da consciência que fica geralmente oculta, por sua rapidez, do crivo da consciência mesma distraída pelos objetos e fenômenos, sendo apenas vislumbrada a posteriori como reação ao conscientizado e sentido, ou às vezes como impulso, instinto ou necessidade.

Mas para o meditador experiente acostumado a perceber que a intencionalidade é simultânea à consciência, há (1) uma liberdade da consciência da prisão do condicionado, do mundo fenomênico (antes tido com existente por si mesmo), de suas impressões e afeições condicionadas (sentimentos, sensações, feelings) e, portanto, uma visão mais clara e lucida, desobstruída de tais distorções; e quiçá o acesso as condições originais. Pode haver também assim (2) uma libertação em relação ao experimentado antes como fato fixo inalterável e existente por si mesmo (fosse fenômeno, coisa e seu fluxo). Ele pode alterar as impressões, a consciência ou mesmo o que antes tinha como objeto e ou fenômeno. No primeiro desses processos se baseia o processo do despertar, do conhecer e do ver por si mesmo. No segundo se baseia a transformação de si mesmo, da vida e do karma do praticante. Ambos os processos (1 e 2) são acelerados pela atenção constante e quando dirigidos para uma purificação mental (desobstrução das condições originais). A purificação mental e a lucidez consciente, por outro lado, são acelerados num crescente retroalimentando com os dois processos.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

QUANDO FALAMOS DE AMOR




 

Deus é Amor

Esta foi a lei dos antigos

Repetida e idolatrada até nosso tempo

Mas quem foi que a entendeu?

Criaram um deus inexistente

Com seus próprios valores

E seus próprios caracteres

Elevadas à potência infinita

E disseram que ele era amor

No sentido de que ele tinha amor

 

Apenas todos os que sabem entenderam

Que Deus é Amor

Declarando algo que evidentemente existe: o Amor

E dizendo que isto mesmo é Deus

Isto é a Lei única, una, última

A Lei das leis

A Lei que engloba todas as leis

A Lei da qual emanam todas as leis

O restante fracassou em entender

E em proclamar a verdade

Então quando declaram isto

Estão mentindo ainda que não queiram

 

O Amor é a Lei

Essa é a Lei do nosso tempo

Essa é a lei para quem é capaz

De entendê-la e aceitá-la

Mas quando um romântico fala de amor

Ou todo aquele ligado a velha mentira fala

Deturpa, exagera, mente, fala do velho

Fala de um sentimento

Fala de sentimentalismo

E de histórias e dramas

Não fala como nós

 

Quando nós falamos de amor

Falamos de uma lei natural incontestável

Que atinge o micro e o macro

O concreto e o abstrato

Desde as partículas de todo átomo

Até todos os universos possíveis

Essa lei é entendida como atração

Magnetismo no sentido fenomênico

Simpatia no sentido lato da palavra

União, unificação, combinação

Yoga, religião, tantra

Comunhão

 

Quando falamos de amor

Falamos de forças, lei inexorável

Inevitável, necessária

Que mantém as subpartículas

No núcleo dos átomos

Que mantém as órbitas dos astros

Desde forças magnéticas

Partículas, ondas

Até a gravitação universal

A atração das partículas aos corpos

Que formam o universo

Atração das polaridades complementares

Atração sexual entre os seres biológicos

Definidas pelos caminhos da evolução

Atração das ideais, sentimentos

E objetivos semelhantes

Atração dos pequenos pelo grande

Pelo além, pelo infinito, indefinível

Atração do finito, efêmero, limitado, condicionado

Pelo campo gravitacional do eterno, infinito, incondicionado

 

Quando falamos de amor

Falamos de um querer

Um querer bem

Querer o bem

Uma intensão

Direção, foco, decisão

Complementação, completude,

Boa vontade, bem supremo

Falamos de uma Vontade...

... o Amor é a Lei...

 

 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A VIA CIENTÍFICA NA ORDEM E O SEU TIPO DE INICIAÇÃO


Por Frater I.L.I.V.

Para quem está fora das ordens pode parecer estranha a relação entre ciência e ordens, mas para quem está dentro isso é familiar, até porque a ideia de ciência como hoje conhecemos surgiu, em grande parte, nas ordens. E não apenas isso, alguns dos famosos ícones da ciência fizeram parte de ordens. Podemos citar Nilton, Descarte, Bacon, Robert Fludd, Michael Faraday, Freud, entre outros.  Os três primeiros não só foram cientistas, foram pensadores da sistematização do que define a ciência. O modelo de ciência, de educação científica e de universidade como conhecemos hoje foi pensado dentro das ordens como um projeto para a humanidade despertar de uma era de medo e superstição.

O erro ocorre por normalmente o senso comum acreditar que todas as ordens são místicas e ou religiosas. Quando na verdade nem isto é certo como até o oposto é mais certo: muitas pessoas cansadas do misticismo ou dogmatismo, de suas religiões, mas sem querer de desfazer de seus princípios buscam uma razão lógica ou alguma compreensão mais profunda de sua construção e então encontram nas ordens o que buscam, numa forma mais realista, prática, e às vezes até acham abundantes provas que na religião só se houve falar, não passam de contos. Isto se dá por dois motivos creio: (1) método, numa ordem séria existe metodologia para se chegar aos resultados e (2) experiência direta, não por ouvir dizer nem por estar escrito em algum lugar.

O que muitos não entendem é que somos cientistas que estudam elementos e objetivos próprios da religião e do misticismo e não uma religião ou misticismo que evoluiu para o cientificismo. E como qualquer ciência temos também nossos métodos, descobertas e teorias. Algumas ordens foram mais longe em seu aspecto científico. Poucos sabem disso, pois persistem as visões errôneas de que essa ciência ainda tem as características dos tempos iniciais. Toda ciência evolui, a nossa também evoluiu. Não quero com isso negar que hajam os conservadores. Mas quero acima de tudo denunciar os mentirosos e enganadores que espalham essa visão errônea, seja para afastar as pessoas das ordens ou para fingirem ser de uma ordem séria. Nós somos exatamente o caso das que foram mais longe, e bem mais longe, pois retiramos muita carga de misticismo e ritualística inútil mesmo dos outros ramos. E no ramo científico propriamente dito retiramos totalmente.

Mas não é que retiramos simplesmente, foram descartadas aquelas experiências as quais não são possíveis a comprovação na forma científica. A diferença do método científico das ciências exatas e o nosso é que a maioria das comprovações não pode ser assistida simultaneamente por vários expectadores por se tratarem de experiências individuais ou, como dizem por aí, internas. Mas as pessoas que por elas passam individualmente podem sempre compartilhar com os outros experimentadores e verificar ou refutar suas expectativas. É claro que pelo método de um teste cego os instrutores podem comprovar se os estudantes alcançaram o resultado esperado. E pelo mesmo teste invertido o estudante pode verificar os seus próprios resultados, pela confirmação de resultados que ele não deve ser informado antes de os atingir (isso já foi explicado noutro artigo específico). Nisso, um tal rigor, somos únicos no mundo do oculto.

Uma única escola que se assemelha nessa metodologia (e da qual em parte tem origem nosso método) conserva ainda, para nós, em demasia ritualísticas que encobrem ou ofuscam os elementos efetivos do procedimento. Mas faz isso para proteger o segredo de forma que esse não caia nas mãos erradas, no que temos muito que elogiar daquela ordem. No nosso caso, protegemos os “segredos”, assegurando através dos graus e dos testes que os procedimentos mais poderosos ou perigosos só serão entregues àqueles amadurecidos para tanto e plenamente desenvolvidos, preparados física, intelectual, emocional e moralmente. Sem isso não é possível usufruir dos resultados mais elevados.

Agora, a ineficácia de vários ritos e procedimentos ditos mágicos ou psíquicos ou religiosos não é só por serem apenas superstições. Às vezes o insucesso se deve ao realizador do procedimento ou de quem o ensina. Como isso? Vou citar o caso muito conhecido da yoga no ocidente. Muitos professores de yoga plenamente imersos em nossa cultura desprezam a postura mental de cada exercício e terminam passando a yoga como simples exercícios físicos que podem trazer consequências mentais. Embora mesmo assim podem ser reportados muitos benefícios mentais ou psicológicos derivados da prática da yoga como exercício físico, os efeitos pelos quais os exercícios foram elaborados não são alcançados. Os que se alcançam são apenas os efeitos colaterais que se teria da mesma forma se fossem praticados corretamente, com a postura adequada da consciência; e aqueles efeitos mais elevados são tidos como exagero superstição, não por serem todos (uns são simbólicos outros são reais), mas por nunca serem alcançados por esses que praticam de forma incompleta. O mesmo ocorre com quase toda prática dita espiritual, com os procedimentos de desenvolvimento do ser humano, com as práticas de despertar da consciência.

Por isso a principal prática e a mais pública de nossa ordem consiste em procedimentos, dos mais simples aos mais avançados, de despertar e de meditar que levarão, com o tempo e com o exercício, à experiência mais profunda de todas. Sem essa maneira de ver (1) não é possível alcançar os resultados mais elevados, é como tomar placebo, ainda que seja mais efetivo do que assistir missas ou certos rituais. A outra razão é que (2) ela é indispensável à vida como um todo e sem essa visão, o que se constatará logo, vivemos a maior parte do tempo como máquinas pré-programadas, entorpecidos como se estivéssemos num sonho ou, em alguns casos mais extremos, totalmente inconscientes (o que é apagado não é também lembrado, por isso achamos que estamos conscientes de tudo sem perceber os apagões e os atos mecânicos).

Quando subirmos um pouco esse nível de visão, mesmo a custo de esforço, jamais vamos querer retornar ao nível anterior, seria como estar são e querer voltar ao estado de doença. Então a outra razão para aprendermos logo a correta postura mental e o correto modo de ver é que (3) os resultados mais profundos e mais importantes da prática são gradativos e demorados, portanto, quanto mais cedo se começar melhor.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A RELIGIÃO ESCLARESCEDORA


Por Frater I.L.I.V. - frateriliv@gmail.com

                Consideramos que uma religião que pretenda a verdade deve ser um fator de esclarecimento, não de obscurecimento, não de dogmatismo não de superstição. Nossa ordem é aberta a qualquer religião desde que não vá contra nossos princípios éticos e nossos objetivos mais elevados. Mas a fraternidade que constitui a porta de entrada da ordem tem dois lados, o cientifico e o religioso, podendo cada um ser tomado à parte.

Se o lado científico for tomado separadamente ou enfatizado o estudante seguirá, se assim quiser, a graduação de nossa ordem, com possibilidade de mestrado e doutorado. Se o lado religioso for tomado separadamente ou enfatizado o estudante seguirá, se assim decidir, os sacramentos religiosos de nossa ordem, com a possibilidade de tornar-se um cavaleiro ou monge e depois de rei ou rainha rosacruz (em ambos os lados há esse título, mas não tem equivalência, a não ser nas práticas fundamentais, visto que o do ramo científico precisa realizar e compreender profundamente muitas práticas fundamentais e o religioso apenas as práticas essenciais mesmo que não as compreenda de todo).

Embora não sejamos uma religião propriamente dita, podemos ter e professar uma religião ou mais, ou não, além do que todos independente de seguirmos ou não uma religião praticamos princípios que podem ser tidos como religiosos em comum. Por isso somos os verdadeiros ecumênicos (do gr. oikoumenikós, pelo lat. Oecumenicu; relativo a toda a Terra habitada; universal; que manifesta disposição à convivência e diálogo), pois nossos estudantes podem praticar todas aqui, e em seu elementos essenciais efetivos, o que já é uma vantagem.

Somos o que se pode chamar de verdadeira universalidade (que não se atêm a uma especialidade; que abrange quase por inteiro um campo de conhecimentos, de ideias, de aptidões, etc.; que é adaptável ou ajustável de modo que possa atender a diferentes necessidades; ecumênico), os verdadeiros católicos (do lat. ecles. catholicu < gr. katholikós, universal.), pois agregamos os elementos verdadeiros de todas as verdadeiras religiões, autêntico sincretismo universal (que abarca toda a Terra, que se estende a tudo ou por toda a parte; mundial), pois os elementos principais não dependem de cultura, linguagem, etnia, povo, mas da natureza terráquea (dita humana, mas que em nosso caso engloba seres que podem não ser humanos na atualidade).

Nos consideramos verdadeiros holísticos, ainda que não façamos alarde sobre isso, nem nos enquadremos na moda atual do que se costuma chamar holístico. Não digo isso por termos aderido ao chamado holismo (de hol(o)- + -ismo: tendência, que se supõe seja própria do Universo, a sintetizar unidades em totalidades organizadas; teoria segundo a qual o homem é um todo indivisível, e que não pode ser explicado pelos seus distintos componentes (físico, psicológico ou psíquico), considerados separadamente), mas por ele ser uma consequência natural dos princípios herméticos, aos quais nós admitimos. Por todas essas características podemos ser considerados a verdadeira religião (tanto no sentido de religação quanto no sentido de releitura) e não mais uma religião, afinal, englobamos todas e todos no que têm em comum; e pesquisamos os elementos reais e efetivos e as formas de potencializá-los para alcançar os objetivos comuns a todas.

Na humanidade, quanto à busca da verdade, existem dois tipos de pessoa, os esotéricos e os religiosos. Os esotéricos são os que buscam as ordens, a experiência, o ver por si mesmo, os empiristas. Nessa categoria estão incluídos os cientistas, os historiadores, os compositores, os artistas, etc. Sim, pois todos passam por um processo ‘esotérico’ na vida, a saber, dominar algo que relativamente poucos dominam; possuir um conhecimento especial (e poderes em muitos casos) ou passar por um aprendizado gradativo em que o fim depende das partes anteriores, sendo inacessível àquele que não possui os pré-requisitos (como no caso das universidades, ordens ocultistas e academias militares). Isto é o que se chama esotérico, um circulo menor dentro de outro círculo, que engloba apenas certas qualidades; maior qualidade, especificidade e precisão.

Os religiosos são os que buscam as igrejas, as religiões exotéricas, uma explicação, uma esperança, um conforto, uma solução, algo em que possa confiar, ter fé, acreditar. Nessa categoria estão incluídos os filósofos (sim, os filósofos, pois podem concluir sem provas, se satisfazer com mero raciocínio ou suposta evidência), os psicologistas, os jornalistas, os instrumentistas os artesões, etc. (essa correspondência é apenas ilustrativa aqui). Buscam um domínio ou conhecimento público, acessível a qualquer um, imediato ou que possa ser rapidamente absorvido, facilmente demonstrável ou entendível, que não depende de muitos conhecimentos prévios. Isto é o que se chama exotérico, um circulo aberto, maior, que pode englobar mais, maior quantidade e generalidade. 

Há intermediários? Sim, mas sempre um lado predomina. Há ‘neutros’ ou que estão fora dessas características? Talvez, admitimos a possibilidade ainda que não tenha sido encontrado. Mas tais seriam como verdadeiros niilistas, que não se importam com nada, nem admitem ‘verdades’ ou experiências ou razoes ou percepções, e desejam o nada. Se tais existirem de fato, ou não passem de traumatizados ou maníaco depressivos (etc., etc.) como a maioria dos que se afirmam niilistas: não estão buscando a verdade e não podem ser sequer considerados humanos normais enquanto estão nesse estado, sendo que a busca de ‘verdades’ mais seguras é uma característica da natureza humana. Se existem precisam antes de tratamento, estudo, abertura mental, serem bem tratadas compassiva e amorosamente.

Existem ações e estudos que o religioso pode fazer aqui, todo o aspecto exotérico de nossa ordem, apesar da ‘cientificidade’, oferece teorias, filosofia, moral e práticas que podem ser acessíveis a todos, sem que seja necessário nenhum super aprofundamento, mas apenas entendendo e praticado como em qualquer religião de fato. E nós não prometemos um inferno àqueles que não realizarem nossas práticas ou ideais mais elevados, apenas apresentamos as possíveis consequências de acordo com os caminhos, decisões e comportamentos tomados. É mais importante escolher e decidir com consciência dentro de suas possibilidades de realização e superação e ter um querer e vontade elevados do que ter altos objetivos e se esforçar sem sucesso e numa sucessão de fracassos e sentimentos de culpa. Por isso enfatizamos o próximo passo, o presente, e valorizamos o caminho acima dos objetivos últimos, que estão distantes de nós e não podem ser conquistados a qualquer custo ou por quaisquer caminhos ou atalhos.

E o que são, resumidamente esses fundamentos religiosos? Primeiro de tudo o auto conhecimento e o conhecimento da interdependência de tudo com tudo e todos com todos e com tudo (o que já leva ao próximo elemento, o fator ético, ou mesmo moral), através da (a) atenção constante tal qual ensinamos e da (b) auto observação; esta prática consiste no despertar conscientemente e já, por sua própria natureza; leva a ver algo por si mesmo e a um esclarecimento. É o trabalho com a consciência. Segundo, o elemento do comportamento, dentro de valores que proporcionam uma vida melhor e mais harmônica com o ambiente e com os outros seres, o fator ético, uma moral prática, que além das vantagens citadas que constituem o seu lado empírico, contribui sistematicamente para o processo de purificação mental, que leva a eliminação dos obstáculos, da vida e, principalmente, dos que obstruem a visão. É o trabalho com a vontade. O terceiro elemento é o elemento da união, compreensão, aceitação; são práticas, ritos, festejos, exercícios, etc. que nos levam a uma aproximação e quiçá uma comunhão com aquilo que buscamos de mais elevado, com o divinal, o absoluto, o incondicionado, isto que alguns chamam Deus, outros Nirvana, outros Brahman, outros o Uno ou o Um, IAO, Cristo Buda,  Vauhala,  Rá, o Sol, o Tao, etc. mal entendido pela maioria das religiões ocidentais. Este é o trabalho com o amor.

Sim, falando em religião, a união suprema pode ser alcançada também no caminho exotérico, religioso, é claro. Dizem que isso pode levar vidas e vidas, mas o mesmo pode ocorrer no lado esotérico. Dizem que é o caminho mais leve, mas que pouquíssimos alcançam as metas, mas isso pode acontecer em qualquer caminho dada a afinidade e o esforço de cada um. Mudam os procedimentos, os obstáculos, as facilidades e dificuldades. Cada pessoa trabalha com aquilo com que se sinta em harmonia e afinidade, visando o melhor resultado com relação ao objetivo último que é a iluminação, ou seja, justamente o significado da palavra religião, a união com o supremo.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A RELIGIÃO DO PRESENTE


Por Fra. I. L. I. V.

 Na FGTO existe a possibilidade de termos, para aqueles que assim tendem ou queiram, a formação do braço religioso da ordem. Essa é mais uma possibilidade que a ordem maior nos possibilita sempre visto que a humanidade é representada por dois tipos de seres humanos quanto à busca da verdade: os ‘religiosos’ e os ‘esotéricos’, e que é uma grande carência no nosso país onde existem muito poucas tentativas autênticas e abundam os farsantes, os sectários, os fanáticos e os enganados.

Essa possibilidade acontece por na grande ordem das hierarquias do conhecimento iniciático representar o grau exotérico, ou seja, aberto, público, aquele conhecimento que não representa perigo, nem dano, quando divulgado a qualquer pessoa. Além do que o chamado esotérico é totalmente velado ao não iniciado, devido ao grande e difícil simbolismo dos textos aos quais um iniciante não está capacitado a entender na realidade, nem preparado física, psíquica e moralmente para praticar e obter os resultados esperados. Mesmo assim existem aqueles que já estudam ou admiram e veneram tais textos e às vezes sentem-se até praticantes. Nem por isso estes ou quaisquer outros deixam de ser também bem vindos à nossa confraria de caráter religioso, afinal estamos aqui para orientar e esclarecer, não para confundir, e para revelar, não para esconder, afinal o segredo é, por natureza, inimigo da verdade.

A confraria é formada por pessoas representantes de várias religiões, filosofias, escolas ou qualquer linha de ideias. E também por aqueles não ligados a nenhuma dessas coisas. E também aqueles que tomem essa fraternidade como sua única religião. E ainda podem surgir outros casos, não importa; o que interessa é o respeito mútuo e o conhecimento proporcionado por essa confraria. Qualquer um é livre para seguir suas próprias ideias, ter sua própria religião ou aderir a uma ou às várias das existentes ao mesmo tempo, ou a nenhuma delas ou ser cético ou ateísta. Importa mais não ser sectário do que indicar qualquer caminho como sendo superior a outro ou mais universal que outro. Mas que no encontro das múltiplas formas de conhecimento, de procedimentos e seus resultados todos nós de alguma forma nos transformamos. Nisso consiste a forma mais elevada da ciência alquímica.

 O caráter dessa religião é gnóstico, uma Confraria Gnóstica Rosacruciana, chamemos CGRC provisoriamente. Pois uma coisa é a ordem, onde há, como o nome já diz, uma ordenação, uma hierarquia de graus e de conhecimentos chamados vulgarmente de ocultos ou esotéricos ou de ciências ocultas; outra coisa é a confraria que é aberta a qualquer pessoa com ou sem conhecimentos prévios, estudo ou graus iniciáticos de qualquer ordem, que constitui, como foi dito, o ambiente  exotérico, ou seja externo. O que entendemos por ser gnóstico já foi divulgado em outro artigo anterior. O que é Rosacruz é um tema a ser falado em próximos artigos, mas que exige mais um contato direto para um esclarecimento mais pessoal; grande parte desses conhecimentos no caso prático da religião, ou mesmo da ordem, são de transmissão oral, pois precisam ser transmitidos dessa forma. Outros são de origem ‘energética’ ou vibracional e precisam ser transmitidos presencialmente.

Dessa confraria participam ordenados, a partir do grau de monge ou cavaleiro de nossa ordem, e qualquer pessoa interessada em participar, estudar, curiosos, buscadores, pesquisadores, etc. o papel do ordenado é orientar, transmitir, facilitar, etc. Por isso mesmo devem ser pessoas bem informadas, que estudem com profundidade, mas não só isso, e sim que falem com conhecimento de causa, daquilo que conhecem da própria experiência, não por ter ouvido dizer ou por fé ou crença ou dogma ou axioma. Precisamente nisso reside uma das grandes diferenças entres as religiões gnósticas e as outras.

Os não ordenados, por outro lado, têm a liberdade de praticarem ou não o que quiserem, de acreditarem ou não no que quiserem de aceitarem ou não o que quiserem. Suas obrigações, entretanto, são a conduta ética; o asseio e higiene corporal, ambiental e mental; o respeito múltiplo a liberdade de cada um e a sua própria órbita. Pois se os planetas invadissem as órbitas uns dos outros isso não só interferiria na liberdade dos outros, geraria também desarmonia em todo o sistema (veja o mundo que vivemos), então reina o caos até que a destruição atinja tudo o que foi contaminado e o contaminador e a natureza volte a corrigir a harmonia sem existência dessas partes. Disso um bom entendedor já sabe o que foi descrito. É preciso esclarecer se alguém não entender: isso é uma lei natural, inevitável, não é necessário que ninguém nem nenhum ser superior julgue ou aplique qualquer pena. Em suma, não existe liberdade sem esses limites, não por uma moral religiosa, mas porque é natural, o estorvo, o incomodo, o empecilho, por natureza não é bem vindo em nenhum ambiente e se exclui por si mesmo.

O benefício dessa associação é compartilhar da nossa fraternidade; do fluxo da corrente dos iluminados de todos os tempos, da energia dessa corrente; dos estudos e de práticas que elevam, enobrecem, fortalecem, limpam, curam, purificam, esclarecem, iluminam e do convívio com uma forma de ver e de viver, e com pessoas que compartilham disso, que nos aproxima da divindade, do supremo e dos reais valores incontestáveis da vida, da vontade, da consciência e do amor supremo.

Religião verdadeira é uma forma de reler o universo do qual somos parte, uma forma de unir-se à verdade. O verdadeiro templo é o corpo, o verdadeiro templo é a mente, o verdadeiro templo é o coração. A verdadeira igreja são os seres irmanados na mesma vontade, numa mesma caminhada, a fraternidade das pessoas, dos iluminados e da própria Luz... O verdadeiro rito é o Amor Supremo.

 

domingo, 10 de novembro de 2013

COMO SOMOS CIENTÍFICOS

Por Fra. I. L. I. V.
                Nossos métodos são completamente científicos. Mesmo quando estudamos temas que são comuns da religião estudamos como cientistas não como artigo de fé nem doutrinal. Nosso conhecimento é baseado em experimentos, cálculos e estatísticas como em qualquer ciência acadêmica. Nossos limites e percentuais de certeza, entretanto, têm que ser mais rígidos e mais rigorosos do que os da ciência comum embora se pense o contrário.

                Isto ocorre porque muitos dos experimentos não podem ser testemunhados por outra pessoa que não o experimentar. Por esse motivo quando damos um procedimento não descrevemos o resultado, nem pedimos que observe isso ou aquilo, nem perguntamos se houve tal ou qual acontecimento. Tudo deve vir das observações do experimentador. O professor é quem deverá observar se o resultado foi alcançado ou não pelo relatório do experimentador e então contar em suas estatísticas e também aprender com elas, que sendo as experiências de outros podem ser diferentes ou conter elementos diferentes do que foi a sua própria. No entanto, a objetividade dos resultados deve ser sempre mais centrada, como na física, no que interessa como resultado e não nos efeitos colaterais que são diversos, isto está sempre no domínio do conhecimento do instrutor.

                Assim nossa metodologia, ao contrário do que se pensa, bem mais em contato com o método das ciências exatas e biológicas do que com as ciências humanas e completamente distante do método das ciências sociais (sem com isso desconsiderar estas), tem base na observação mais acurada dos fenômenos e análise estatística do que foi cuidadosamente observado e anotado . Até quando especulamos hipóteses elas devem se basear em dados observáveis, matematicamente calculáveis, estatisticamente prováveis. Nada metafísico com exceção de uma única coisa que preferimos não citar (que se pode dizer metafísica apenas por não poder ser descrita senão por metáforas e ser incalculável, imprevisível, inimaginável, podemos apenas vivenciá-la, gradual ou, dizem alguns, subitamente), mas a qual só é metafisica até o momento em que o experimentador a comprova por si mesmo, para si mesmo, desde então, obviamente, se torna também empírica.

                Podemos ao estudar textos antigos, por exemplo, nos apropriarmos de métodos da antropologia ou arqueologia, mas esse será apenas nosso estudo antropológico ou arqueológico do estudo. Podemos especular a influência do ambiente, do momento histórico, da linguística e outros fatores na psique do escritor, mas isso definitivamente não é o que nos interessa como fim último, nem qualquer análise psicológica ou biográfica do autor pode interferir em nossas reais motivações e conclusões de tal estudo. Quando estudamos tais textos é por saber ou pelo menos suspeitar por alguma evidente quantidade de elementos identificáveis que aquele texto trata de um procedimento para chegar a certos resultados que coadunam com nossos objetivos ou que pelo menos os corrobora. E não acreditamos naqueles procedimentos, mas ou sabemos que ali contém um procedimento por termos sido informados por um estudioso sob o qual o estudante está em orientação ou estamos estudando exatamente isso, se há ou não.

A diferença é que em ambos os casos ele terá que ser comprovado através da repetida experimentação, e por todos os estudantes que assim o quiserem. Os resultados constituem a prova ou refutação, não só individualmente para o estudante, mas para o quadro estatístico do professor também, que poderá mais que os próprios indivíduos saber da eficácia e autenticidade do procedimento. Esse exemplo foi apenas para afastar qualquer dúvida ou suspeita de que possamos ser doutrinados por textos antigos ou supersticiosos. Quanto aos que tratam especificamente de nossos procedimentos já consagrados por nós, eles constituem nosso caminho e nossa indicação, não por outro motivo além de já ter sido comprovadamente eficaz quanto aos nossos objetivos.

Dentro das várias tradições, ou das quatro vias no nosso caso, nós já sabemos de antemão por já termos estudado e praticado e passado experiências necessárias para entender os significados de certos textos e quais são esses textos (e ou as partes deles que contêm o que queremos), mas temos plena liberdade de estudar e experimentar outras tradições. De forma alguma somos forçados a escolher qualquer linha doutrinária. E todo aquele que descobrir que o que oferecemos não combina com o objetivo de sua vontade está livre para partir, não oferecemos verdades universais fora das quais alguém esteja em maldição, e sim alguns caminhos para alguns objetivos e para o objetivo supremo consagrado por muitas tradições, mas que de forma alguma impomos como objetivo supremo para todos os seres humanos.

Confiamos no nosso caminho por ter sido comprovadamente eficaz por milhares de anos para milhares de pessoas, e também por nós, quando iniciantes, já termos colocado nosso caminho à prova e sempre o estarmos comprovando cada vez mais. Temos confiança, como na ciência, em nossos procedimentos, nossos professores e nossos descobridores, não fé, não crença, pois nosso caminho se baseia na comprovação individual, onde cada um sabe por si mesmo de suas experiências e não por ter ouvido testemunhos de outros nem por ter lido em livros como nas religiões e algumas escolas ou academias. Por isso guardamos silêncio sobre os principais resultados até que o novato o tenha encontrado, visto e descrito por si mesmo depois de seguir os procedimentos indicados, não por nos ter ouvido dizer.

É o estudante que tem que nos provar que aprendeu e fez os experimentos corretamente, como na ciência, não nós que temos que convencer ou provar ao estudante com testemunhos e textos, como na religião. Desde o início quando convidamos alguém não estamos tentando convencer nem levar a crer em nossas teses, mas estamos avaliando o convidado. Este que só foi encontrado por indicação, por ter-se oferecido a conhecer nosso sistema ou por termos percebido algum potencial, preparo ou predisposição.

Nossa formação não se assemelha com uma formação acadêmica, mas a acadêmica que deriva da nossa, isto sabe qualquer estudante que se aprofundar de verdade na história da ciência e chamada historia oculta, pois por trás das ideias sobre as quais a ciência evoluiu até hoje estão as mentes de filósofos, ocultistas, alquimistas e membros de diversas ordens (a lista de nomes seria muito comprida para citar aqui, mas será visto em outro ensaio uma lista com alguns dos principais, mas podemos citar ao menos dois grandes pilares, Nilton e Bacon) e de um planejamento saído das ordens no ocidente e de escolas do oriente. Entre essas ideias podemos destacar a de universidade, estudos como temos hoje, que surgiu na índia e semelhantemente na china, há mais de dois mil anos, tendo existido ao longo da historia várias universidades. Outra que podemos citar é a de cadeias de disciplinas como existem hoje nas universidades que no ocidente surgiu entre os templários.

Mas não somos de forma alguma conservadores nossa ciência evolui e as informações e descobertas, os métodos e interpretação dos resultados também crescem e evoluem ao longo do tempo. O que acontece é que em nossa ciência há um objeto de estudo supremo, e um objetivo supremo já consagrado e comprovado como tal por levar justamente a uma forma de conhecer que é muito superior e mais garantida do que as formas comuns. Porém como este é difícil e só alcançado depois de longo trabalho é cercado de outros métodos e objetivos mais próximos de nossas possibilidades atuais e mesmo métodos que visam um avanço mais rápido quando ao objetivo principal, como aqueles que se assemelham ou se aproximam em seus resultados às comprovações que só seriam possíveis àquele que alcança o objetivo último.

Nisso muito nos assemelhamos ao alquimista antigo. Mas é preciso a ressalva que a alquimia antiga evoluiu muito tanto dentro como fora das ordens e hoje em quase nada se assemelha com o que foi divulgado ou com o que se pensa que ela seja. Claro que fora das ordens ela tem como dessedentes a física e a química, mas também boa parte da biologia, da psicologia e obviamente da medicina e neurociência. Mas dentro das ordens não desconsideramos isto, porem existem outros desenvolvimentos. Nada do que foi divulgado como os precursores da química em busca de ouro nem dos “sopradores” têm de fato a ver com alquimia. O que pode haver é uma confusão onde os físicos e químicos são considerado como sucesso e os outros como fracasso. Mas na realidade todos são desvios e descobertas por acaso, que estão longe dos reais objetivos de tais pesquisas e não somos nós que vamos revelar num ensaio despretensioso quais são esses reais objetivos e desenvolvimentos.

Por tudo isso muitas vezes se nos atribuem o rótulo de alquimistas contemporâneos, o que não negamos, apenas temos que avisar que não apenas há diferença entre a alquimia contemporânea e a antiga mas também entre o que é alquimia de fato e o que pensa-se ser a alquimia. Mesmo entre alquimistas não há consenso quanto a isso, existindo duas ou três linhas principais de investigação e desenvolvimento. Enfim a alquimia embora seja uma ciência consagrada sempre, seria para nós mais uma subseção como a zoologia, a ecologia e a etologia são da biologia.

Usando esse exemplo da alquimia podemos estender o aviso de uma forma genérica para quase todos os ramos de pesquisas que realizamos e o que se tem pensado dela fora da ordem ou das fraternidades: esta “semelhança” da ciência não é uma inovação de nossa ordem, é a evolução necessária à qual naturalmente chegamos e outras ordens devem também chegar por ela sempre já fazer parte de nosso método interno, não por trazermos de fora (nessa ordem o método passado oralmente por não haver necessidade de se escrever já que muitos estudiosos já fizeram isso, será em oportuno momento sumarizado e publicado mostrando as nuances que podem para alguns fazer alguma diferença).

Porém, fora da ordem ou de nossas fraternidades não se pode ter muito mais que uma pálida ideia do que se trata e dos processos e fenômenos que estudamos, pois diferente da ciência comum nem tudo é demonstrável a outro, mas apenas de cada um, através de procedimentos e longos treinamentos, para si mesmos. Nem todos estão dispostos a tais disciplinas. Por isso mesmo esse conhecimento é compartilhado quase que apenas entre nós (ou entre nós e outras ordens e fraternidades similares) que sabemos do que estamos falando, isso não por uma má vontade ou segredo, mas pela quase impossibilidade de comunicação com o que chamamos conhecimento comum. Àquele que não passa pelas mesmas experiências pode tudo parecer fantástico, místico ou mesmo loucura; o entendimento, embora seja duro de admitir para alguns, está bem mais ligado à experiência do que à razão. E assim como nem todos se tornarão cientistas, nem todos se tornarão budistas, nem todos serão hindus, nem todos serão cristãos. Bem assim nem todos estudarão em nossas ordens, mas aqueles cuja vontade, consciência ou afeição se afinam conosco. Estes sempre serão muito bem vindos.